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‘La La Land’ merecia o Oscar que não ganhou?

Mesmo que você não tenha visto ao vivo a 89ª cerimônia do Oscar, é bem provável que você já esteja à par da gafe épica cometida no final da premiação neste ano. Recapitulando, para quem esteve absolutamente submerso no planeta Carnaval nos últimos dias, Warren Beatty e Faye Dunaway, os apresentadores da categoria principal da noite, de melhor filme do ano, subiram ao palco do Dolby Theatre, em Los Angeles, no último domingo (26), com o envelope errado em mãos. Os eternos Bonnie e Clyde receberam da produção o envelope que continha o nome da vencedora da categoria anunciada anteriormente, a de melhor atriz, na qual a premiada foi Emma Stone, protagonista de “La La Land”. Resultado? Warren Beatty hesitou, mas Faye Dunaway achou que ele estava brincando e anunciou que o melhor filme era o musical dirigido por Damien Chazelle (que na mesma noite já havia se tornado o mais jovem profissional a ganhar o prêmio de melhor diretor).

O verdadeiro vencedor do prêmio de melhor filme, porém, era “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, o que foi anunciado pelo produtor de “La La Land”, cerca de três minutos depois, quando toda a equipe do musical já se encontrava no palco fazendo discursos de agradecimentos pelo prêmio que não haviam ganhado. Muita gente que considerou “La La Land” superestimado por conta do recorde de indicações ao Oscar e classificou o filme como “Sessão da Tarde” comemorou o desastre. O próprio Ryan Gosling, protagonista do filme, já em cima do palco para agradecer junto com a equipe do longa o prêmio principal da noite, riu da situação constrangedora, protagonizando uma das melhores reações ao erro histórico. Houve quem dissesse que até mesmo o ator sabia que o musical não merecia o prêmio. Mas afinal, “La La Land” merecia ou não o Oscar de melhor filme?

A resposta? Depende. “La La Land” conta a história de amor entre Mia, uma aspirante a atriz que trabalha na cafeteria de um grande estúdio enquanto tenta a sorte, sem sucesso, em diversos testes para filmes de Hollywood, e Sebastian, um pianista apaixonado por jazz, radicalmente tradicionalista, que sonha em ressuscitar o estilo musical e montar um clube para “não deixar o jazz morrer”. Damien Chazelle – que no ano passado já havia sido indicado por “Whiplash” – tem o mérito de dar ao considerado ‘ultrapassado’ estilo de filmes musicais um roupagem moderna, sem deixar de reverenciar o gênero, com claras homenagens aos clássicos.

Me arriscaria a dizer que Chazelle se espelhou nele mesmo para criar o protagonista Sebastian. Tal qual o personagem de Ryan Gosling- que ama o jazz tradicional e se vê obrigado a integrar um grupo de jazz pop para ser bem sucedido -, o diretor e roteirista de “La La Land” parece ser um aficionado por musicais, que sonha em reviver o sucesso dos grandes clássicos do gênero,  vistos como antiquados pelo grande público. Para isso, Chazelle vestiu seu longa com roupagem moderna, e o encheu de apelos que conquistam plateias contemporâneas. Afinal, quem de nós nunca sonhou realizar os mais loucos sonhos? Objetivo atingido. Gostem ou não, “La La Land” é um sucesso, e isso me leva a concluir que Damien Chazelle mereceu seu prêmio de melhor diretor.

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O roteiro, porém, deixa a desejar. Falta à “La La Land” o peso temático dos filmes que a Academia costuma premiar. Não acho que isso seja falta grave – já que alguns dos principais objetivos da sétima arte são entreter e encantar, e o longa é encantador (principalmente para uma apaixonada por musicais, como eu) – , mas “La La Land” é de fato um filme leve, digno de “Sessão da Tarde” (lembrando que isso não é necessariamente ruim). Além disso, musicais deveriam sobressaírem-se pela qualidade dos números musicais e, com exceção da primeira cena – um plano sequência de mais de cinco minutos com dezenas de pessoas abandonando seus carros, em meio de um engarrafamento em uma freeway de Los Angeles, para dançar e cantar -, os números musicais de “La La Land” não têm a qualidade dos grandes números musicais dos filmes que homenageia.

O casal de protagonistas, Emma Stone e Ryan Gosling, tem de fato a química dos grandes casais da história do cinema. Ambos são excelentes atores e estão muito bem em seus personagens. Porém, nenhum dos dois canta e dança com o habilidade que o gênero exige, ou deveria exigir. Emma Stone ainda é melhor que Ryan Gosling nesse sentido. Dança e canta com mais graça e charme, mas não chega aos pés de nomes como Debbie Reynolds, que coincidentemente nos deixou no final do ano passado.

Com altos e baixos, “La La Land” fascina por celebrar o sonho e a arte. Em tempos em que tudo é digital, descartável e fugaz, o musical valoriza o atemporal e analógico, fazendo até uma leve crítica à superficialidade de Hollywood nos tempos modernos, e é aí que mora seu ponto alto. Quanto ao Oscar… No domingo (26), o filme levou pra casa seis prêmios: atriz, diretor, música original, trilha sonora, fotografia e design de produção. Pessoalmente, discordei de dois deles: atriz e fotografia, não por serem ruins, mas sim por não serem os melhores. Mas é a reação de Ryan Gosling à toda a confusão no anúncio de melhor filme a que melhor define minha opinião sobre o assunto. O Oscar não deve ser levado tão a sério. Assim como todas as outras premiações do cinema, música e TV, o Oscar é um prêmio da indústria para a indústria. Tudo bem, eu já ensaiei meu discurso de agradecimento no espelho algumas vezes, confesso, e é claro que é importante que existam tais premiações para valorizar e destacar trabalhos bem feitos e fortalecer a cultura de um modo geral. Mas qualquer forma de arte transita por aspectos absolutamente subjetivos, difíceis de ranquear, e no final das contas, o melhor filme é o que te toca mais.

 

Fotos: Reprodução/ Divulgação

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About Mariana Schittini

Radialista por formação, jornalista por profissão, Mariana Schittini obviamente gosta de dar opiniões. Quando o assunto é cultura pop, então, o desejo de buscar informações e de compartilhar pontos de vista se torna ainda maior. E as opiniões dessa (por enquanto) ruiva, não te deixarão entrar em roubada. View all posts by Mariana Schittini
 

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